111: Carandiru

 

111 e 0. Respectivamente, o número de mortos de presos e de policiais no massacre do Carandiru que ocorreu no dia 2 de outubro de 1992. 111 e 0. 111 presos e 0 policiais. Quer dizer, 111 daqueles que se deram por falta, cuja família depois duramente sofreu a perda. Não se sabe até hoje o número exato de óbitos, alguns afirmam que o número foi próximo de 200, outros, de 300, alegando que vários corpos foram deixados de lado nessa contagem.

A polícia relatou que a ordem de invadir o pavilhão teve como motivação a desordem da rebelião entre os detentos, atirando em legítima defesa para manter a ordem.  Porém, os dados obtidos pela promotoria revelam que a maioria dos tiros foram direcionadas à cabeça e ao tórax dos infratores, o que mostra indícios de uma tentativa de extermínio, contrariando a versão dada pela polícia. Além disso, apenas 85 das mortes ocorreram dentro das próprias celas, com os policiais atirando de fora, o que novamente revela uma intenção de matar e não de autodefesa.

“111 que tinham pai, mãe e advogado. Quem recorreu. Várias pessoas não tinham família. As pessoas excluídas, consideradas como indigentes. Eu creio que aproximadamente morreram uns 250. Eu distribuía alimentação no presídio. Naquele dia sobraram quase duas caixas de pão.”

(Sidney Sales, ex-presidiário sobrevivente ao massacre de Carandiru.)

Essa chacina é fundamental para a compreensão do funcionamento do sistema carcerário no Brasil, principalmente de sua decadência e precariedade, sendo um marco simbólico da história do sistema penal brasileiro. O ocorrido demonstra como a punição e a reinserção de egressos na sociedade são elementos contraditórios.

A Casa de Detenção de São Paulo, conhecida popularmente como Carandiru, localizava-se na Zona Norte de São Paulo e foi inaugurada em meados dos anos 20. O presídio tinha como princípio  de conduta o Código Penal Republicano de 1890 que deixava de lado o sistema de punição para focar em um de cunho disciplinar aos detentos, de modo a conseguir fazer o bom retorno destes na sociedade, garantindo do melhor modo possível sua reinserção no espaço público. Desde sua inauguração até a década de 40, o então chamado Instituto de Regeneração era considerado um presídio-modelo, tendo um padrão de excelência de qualidade e considerado um dos melhores presídios nas Américas. A sua capacidade de lotação correspondia a 1.200 vagas e, em meados de 1940, esta foi atingida. Logo, uma das formas de tentar resolver os problemas de superlotação foi a construção, em 1956, da Casa de Detenção, que elevou sua capacidade a 3.250 detentos. Carandiru chegou a ter 8.000 detentos, excedendo sua capacidade em torno de 200%. Infelizmente, a partir desse momento, o complexo penitenciário passou a ser alvo de rebeliões e crises, passando a fornecer péssimas condições de vida aos detentos.

As consequências do ocorrido não trouxeram nenhuma ordem de punição cumprida por aqueles julgados culpados do caso. Em 2001, o Coronel Ubiratan, culpado de 105 das 111 mortes registradas, foi julgado e condenado a 632 anos de prisão. Pela sentença do júri ter sido considerada “contraditória”, foi absolvido em 2006. Os julgamentos de cada andar ocorreram entre 2013 e 2014, não tendo levado a nenhuma prisão dos acusados. Em 2016, o Tribunal da Justiça de SP anulou todos os julgamentos e, no ano passado, foi decidido levantar um novo julgamento por falta de unanimidade na decisão anterior.

Quando o massacre completou 10 anos, em 2002, Carandiru foi fechado por completo. A implosão dos edifícios representava, de certo modo, a destruição de um símbolo da violência nacional. A ideia também trata de uma tentativa de silenciamento do ocorrido, demonstrando vergonha e incertezas sobre o que realmente aconteceu naquele dia. No local, foi construído o Parque da Juventude, complexo esportivo, recreativo e cultural, apagando a memória física do local.

A trama que cerca a tragédia ganhou tanto repercussão nacional quanto internacional, servindo de exemplo para outras rebeliões em presídios e alimentando a chamada cultura do medo. A ferida de Carandiru foi reconstruída em vários lugares, desde relatos de sobreviventes, ou artigos científicos, até adaptações cinematográficas e publicações de livros.

O foco escolhido, portanto, será do filme Carandiru de 2003 dirigido por Héctor Babenco. Este é uma adaptação do livro Estação Carandiru escrito pelo doutor Dráuzio Varella que relata de modo direto, clínico e seco, o convívio do médico com os detentos durante o auge da crise da epidemia de AIDS em meados dos anos 90.

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A trama se desenrola em maior parte aos acontecimentos anteriores ao dia fatídico de 2 de outubro de 1992, acompanhando a vida e a história de um grupo de detentos do Pavilhão 9.

Babenco, conhecido por clássicos do cinema nacional como Pixote e O Beijo da Mulher-Aranha, diferencia-se em seu estilo de filmagem com Carandiru. Em aspectos técnicos, o filme não surpreende, com sucessivos flashbacks jogados aleatoriamente, narrações em off que pecam, atuações caricatas e histórias de personagens bastante humanizadas, porém mal desenvolvidas, não criando grande empatia pelos detentos. A escolha do elenco é um aspecto que também diferencia o longa de outros como Pixote, já que opta por colocar faces famosas da televisão brasileira, ao invés de trabalhar com rostos desconhecidos.

“No dia 2 de outubro de 1992, morreram 111 homens na Casa de Detenção de São Paulo. Não houve mortos entre os policiais militares.

Só podem contar o que aconteceu Deus, a polícia e os presos. Eu ouvi apenas os presos.” (Drauzio Varella no filme Carandiru)

Apesar do filme ter aspectos negativos em sua produção, é inegável que o modo de retratar a história dos acontecimentos é o mais fiel possível nos parâmetros construídos. A narrativa é contada de modo cru, frio e, de certa forma, poético, tendo como protagonista o presídio por si só, não a história de cada preso. O lado parcial dos acontecimentos, retratando a polícia como vilã, afirma um ponto de vista da história menosprezado pela justiça. Porém julgar o longa apenas por esse aspecto seria injusto, uma vez que mostra os acontecimentos que são conhecidos publicamente; o massacre ocorreu, centenas de vidas se perderam e a memória daquele dia foi enterrada e ignorada pela lei. Babenco mistura sequências ficcionais com imagens documentadas, aproximando e confirmando os fatos que se sucederam da realidade. Logo, o argumento do filme não trata da questão se a polícia militar abusou da força ou se os detentos mereciam ou não o que levaram, mas sim trazer o debate e a discussão sobre um dos fatos que marcou a história de nossa nação, ressaltando a luta entre a violência e segurança que resguarda em nosso país.

Vale também ressaltar que o longa é cheio de analogias e metáforas para a situação e o futuro dos detentos. Uma destas ocorre em uma cena que o personagem Chico solta um balão de ar quente no pátio do presídio que sobe em direção ao céu, parecendo conseguir escapar do edifício, quando entra em combustão, caindo e novamente retornando ao pátio. Desse modo, o balão representa a esperança da liberdade de um preso, perto de conquistá-la, mas se decepcionando ao ver que esta ainda está muito longe de ser atingida. A reintegração dos egressos no convívio social é, dessa forma, tratada como algo quase impossível de ser atingido, já que a luta com o preconceito é feita continuamente, afetando as possibilidades de emprego e de vida que um ex-presidiário sofre ao entrar novamente na sociedade.

WhatsApp Image 2018-03-17 at 19.24.24(Cena do filme Carandiru de 2003 depois do massacre)

Em outra cena logo depois do massacre, um cão policial anda pelos corredores caoticos com resquícios de violência. Este se depara com um gato de um preso relativamente pequeno comparado ao seu tamanho e ficam de frente um ao outro. O simbolismo que se obtém da imagem é o confronto entre a força policial, representada pela imagem do cachorro, e a dos detentos, sendo estes o felino. O tamanho proporcional do primeiro para o segundo demonstra a diferença entre os poderes de cada lado, sendo que a impotência do gato aponta a fraqueza dos presidiários comparado aos policiais na situação, já que não tinham como se defender no conflito, sem o posse de armas como tinham os policiais.

WhatsApp Image 2018-03-17 at 19.21.27(Cena do filme Carandiru de 2003 depois do massacre)

Em seguida à cena mencionada anteriormente, o chão do presídio, coberto de sangue, é lavado, jogando sabão escada abaixo e levando toda a sujeira. A cena é uma analogia ao extermínio dos detentos, demonstrando uma tentativa de limpar e, de certo modo, esquecer o massacre. Ao mesmo tempo, o sangue misturado ao sabão também simboliza a forma que parte da sociedade achou de lidar com os detentos, tendo como melhor solução a morte destes, não a tentativa de educá-los para reinserir-los novamente na sociedade em analogia à máxima popular Bandido bom é bandido morto.

“Eu era negro, egresso do sistema penitenciário, sobrevivente do massacre do Carandiru, dependente químico e semianalfabeto. Na hora de fazer um currículo, na hora de procurar um emprego, apresentava antecedentes criminais e ninguém me queria”

(Sidney Sales, ex-detento sobrevivente ao massacre de Carandiru)

Screen Shot 2018-03-17 at 8.57.41 pm(Cena do filme Carandiru de 2003 que mostra o personagem de Sidney Sales lendo uma carta com o Salmo 91 logo depois do massacre na cela 504-E)

As falas do ex-presidiário Sidney Sales são de extrema relevância para a história de Carandiru. Relatos de sobreviventes como ele mostram mais um lado de uma verdade desconhecida e injustiçada da situação atual dos presídios em São Paulo e em todo o país. Os ex-detentos que passaram por esse acontecimento têm um passado desconhecido pela população que merece ser contado. Logo, a importância de obras como Carandiru é fundamental para que se tenha conhecimento de uma realidade ignorada pela sociedade.

Recomendo extremamente o filme para quem tiver interesse de conhecer um pouco mais o cinema nacional. Segue abaixo o trailer oficial:

 

Por Amanda


FONTES:

BORGES, Viviane Trindade. Carandiru: os usos da memória de um massacre. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 8, n. 19, p. 04 – 33. set./dez. 2016.

https://www.brasildefato.com.br/2017/09/29/terra-das-chacinas/

http://m.folha.uol.com.br/banco-de-dados/2017/10/1923603-ha-25-anos-massacre-do-carandiru-resultou-na-morte-de-111-detentos.shtml

https://www.zemoleza.com.br/trabalho-academico/humanas/direito/analise-do-filme-carandiru/

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/14/politica/1497471277_080723.html

http://www.saopauloinfoco.com.br/historia-carandiru/

https://www.cartacapital.com.br/mobiliza/carandiru-justica-determina-novo-julgamento

https://acessajuventude.webnode.com.br/historia-do-carandiru/

https://www.brasildefato.com.br/node/10761/

https://www.papodecinema.com.br/filmes/carandiru/

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